Querido, Joe.
Eu gostava de Joe e suas baratas.
Joe morava no alto
E do alto do prédio eu olhava minha vida
Era como a Avenida, os carros passando, todos indiferentes.
De dia correria, de noite calmaria. E luzes.
Joe amava Ella, e ás vezes eu gostaria de ser Ella.
Não porque amava Joe, mas porque amava Ella. A vida a garra e a força. Mas essa história é sobre Joe e não sobre Ella.
Um tipo meigo e gostoso, daquelas pessoas que você quer bater e morder e amar e casar e ter filhos.
Não era pra mim, mas eu gostava de ser assim. Eu não queria ser a protagonista, não queria o drama nem a novela. Só a cama e o café, o sexo e o beijo de bom dia. Eu não gostava de dormir sozinha e Joe era uma boa alternativa, talvez eu dormisse todos os dias com ele até hoje sem me apaixonar, porque Joe não era importante pra mim era só um filme que eu gostava de assistir.
Eu gostava do seu apartamento cheio de baratas. Cheeeeeeeeeeio de baratas!!! E eu juro não me incomodava e as baratas respeitavam nosso templo. Elas não rodeavam a cama e nem as cervejas.
Não tinha comida na casa de Joe e isso me deixava feliz e menos humana.
E eu gostava de visitar Joe e imaginar Ella naquela sacada, ela naquele cenário, naquela janela. E saber que Ella também não ligava para as baratas e comprava vasos sem plantas onde jogaria um cigarro com marca de batom vermelho.
Eu gostava de imaginar Ella nua pensando no mundo e Joe ali com aquelas baratas. Ela queria abraçar tudo, era guerreira, forte , inteligente e impiedosa e Joe... Joe era só Joe. Com suas baratas e seu mundo em vinte e cinco metros quadrados, tão quadrados quando o próprio Joe. A quem Ella deu vida e deixou morrer, mas mesmo assim lá estavam os vasos sem flores... mas são vasos... e aqueles cigarros davam esperança que ali nasceria num lindo bom dia um pouco de Ella.